Eu sempre fui uma adolescente gordinha. E isso me trouxe alguns traumas: a ultima das minhas amigas a dar o primeiro beijo,  a menos requisitada pelos meninos, a única que não ia à praia para não ter que ficar de biquíni, a que vivia de casaco mesmo no verão para esconder os braços.

Desde pequena, sempre senti que tinha algo errado com meu corpo, mas nunca tinha dado muita bola para esse incômodo.

Até que chegou a faculdade e eu resolvi emagrecer. Todo mundo me elogiava. A vida que sempre sonhei estava bem ali: recebia olhares dos meninos com frequência, estava numa faculdade onde eu era uma das mais populares e entrei pro time de cheerleader. Sonho de (quase) toda adolescente né?

No Instagram, comecei a seguir blogueiras fitness, nutricionistas, personais, meninas que haviam emagrecido mais de 10kg, perfis low carb, pessoas que passavam rotina de treino… Perdia a maior parte do meu tempo vivendo a vida dessas pessoas e decorando todas as dicas que pudesse.

Carboidratos sempre em porções pequenas, jamais depois das 18h. Não consumir frutas, pois tem muito açúcar (frutose).  Mastigar pelo menos 20 vezes…. etc. Uma lista infinita que eu chamava de foco, nunca de obsessão.

Fui ao extremo, mas ninguém percebia.

Eu evitada sair com minha amigas porque sabia que ia sair da dieta. Furei vários encontros da família e, nos que ia, jurava para todos que não ia comer porque não estava bem do estômago. Parei de beber nas festas da faculdade quando li que o álcool era um dos maiores vilões da dieta. Fiz jejuns de 12, 14 e 16h porque aprendi na internet que era uma super estratégia de emagrecimento.

Me convenci de que os carboidratos eram os maiores vilões do planeta terra e junto convenci à todos de que eu era extremamente saudável por não come-los. Durante a semana eu era 8, mas quando me permitia comer alguma coisa fora da dieta, era 80: pedia tudo nas maiores porções e com direto à sobremesa – mesmo que me custasse um estômago dolorido de tão estufado e a semana seguinte à base de salada.

Aos poucos a obsessão por ser magra foi me consumindo. Não ficava mais satisfeita com meus 10kg a menos, eu queria mais. Queria 15, queria 20… Queria pesar 50kg e me achava enorme de gorda se engordava 300 gramas por causa de um final de semana de excessos.

Até que um dia, em meio à um “Explorar” que só mostrava corpos sarados e milimetricamente esculpidos, vi uma publicação que me chamou atenção: uma menina sentada em sua cama com suas dobrinhas à mostra e, o que mais me chocou, um sorriso de orelha à orelha. “Como existe alguém no mundo que pode se sentir bem com o corpo que tem, mesmo não sendo super magra?”, foi o primeiro pensamento que veio na minha mente.

Ai foi quando percebi que o que tinha que mudar não era meu corpo, era minha cabeça. Foi um processo longo, com muitas idas e vindas, mas fui tomando consciência de tudo o que eu estava passando.

Parei de seguir todas as blogueiras fitness – que assistia religiosamente, sem perder nenhum stories. Não era nada contra elas, mas vi que aquele estilo de vida não pertencia à mim e só me trazia frustração. Substitui essas blogueiras por outro tipo de influenciadora: aquelas que falavam de aceitação, auto estima, empoderamento, amor próprio. E não é que aquilo me fez muito bem?

Vou confessar que as vezes ainda é difícil, principalmente porque vivemos num mundo de aparências, onde o tempo todo estamos sendo impactados com nossas próprias amigas fazendo dieta, se matando na academia, tentando ser cada vez mais magras… no on e no off-line. Não temos como escapar… ainda.

As vezes me pego tentando calcular quanto tempo da minha vida perdi tentando chegar em um corpo que nunca vai ser o meu. E tudo que deixei de viver por causa disso. Perdi momentos que poderiam vir a ser os melhores da minha vida. Histórias que não voltam mais. Já se foram.

Hoje só penso que, nesse exato momento, existem mulheres que estão passando pelo que eu passei. Algumas talvez já estejam superando, outras vão continuar por um bom tempo.

E eu só queria olhar no olho delas e dizer que tá tudo bem. Tá tudo bem não ser como a sociedade quer que a gente seja. Somos muito maiores do que isso. 

 

 

Ana Beatriz

Me chama de Bia, se não vou achar que fiz algo errado. 24 anos, formando em publicidade. Ex-doida da dieta e ex-maluca da academia, hoje prefiro gastar meu tempo contando sorrisos do que calorias.

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