É engraçado como, no começo, você evita falar sobre o assunto a qualquer custo e de repente se pega com uma necessidade absurda de contar para os outros. Parece que quanto mais a gente fala, mais leve tudo fica.

Então, meu nome é Laís, tenho 26 anos e há um ano e meio eu fui diagnosticada com depressão.

Antes disso, passei praticamente um ano negando os sinais da doença por não acreditar que um problema de relacionamento me afetaria de alguma forma.

Mas afetou, e muito.

O contexto

Não tive uma vida fácil, mas não me sinto no direito de reclamar. Embora a minha mãe e o meu pai fossem — muito — ausentes, eu tenho a melhor avó do mundo, que me ensinou tudo o que eu realmente precisava saber. Ela sim teve uma vida bem difícil, e ainda assim fez um incrível trabalho comigo.

A minha mãe me teve muito novinha, com 19 anos. E o meu pai era casado, e a esposa dele estava grávida (please, não os julgue, podia ser você e eles são bem massa).

Com isso, logo depois que eu nasci, praticamente não tive contato com ele, e nunca tive nenhum contato com esse lado da família.

Ok Laka, mas porque você está contando tudo isso?

É que, um belo dia, em meados de 2015 a minha mãe me contou que na verdade, ele não era o meu pai. E é bizarro porque ao mesmo tempo em que eu tinha a sensação de que não faria nenhuma diferença para mim, eu senti como se existisse um buraco gigantesco na minha história.

Era como se eu me lembrasse de algumas coisas e precisasse passar uma borracha em tudo o que envolvesse esse sobrenome, esse vínculo e até mesmo essa ausência.

De quebra, ela não tinha nenhuma notícia sobre o meu pai biológico. E, na verdade, eu não sabia mesmo se eu queria saber alguma coisa.

Pelo que eu entendi, ele tinha a obrigado a abortar o primeiro filho, então quando ela descobriu a segunda gravidez ficou com medo de contar. Por que saber mais né?

Nesse período eu tinha acabado de terminar um relacionamento. Até aí tudo bem. Só que a justificativa do término, nas entrelinhas, era o meu jeito.

E não porque eu era grossa, distante, ou sei lá, qualquer coisa do tipo. Aliás, o nosso relacionamento era excelente! Era simplesmente porque eu não era feminina o suficiente.

Não sou muito de maquiagem, ou vestido, ou sei lá, esse padrão do que é ou não ser feminina. No meu aniversário de um ano eu estava de camisa xadrez e macacão, no de dois com algo parecido e no de três também. E basicamente ainda me visto assim.

Provas visuais

Mas ele me conhecia. A gente namorava há um tempo considerável.

Então, embora no fundo eu soubesse que era verdade — ouvia frases do tipo “Porque você não se maquia mais” ou “Já pensou em usar uma roupa mais colorida”  e “O que você acha desse vestido” — eu não achei que isso aconteceria.

O problema é: esses não foram os ápices da história.

O fato

Eu estava muito sensível, com um sentimento de rejeição bizarro, mas seguia fingindo para todo mundo — inclusive para mim mesma — que tudo estava bem. É o meu jeito, sabe? Eu tinha os meus amigos, que eram as pessoas mais próximas, a minha avó, o meu emprego. Não era o fim do mundo.

Um dos meus amigos, o mais chegado, me deu um apoio que eu nunca havia tido. Me ouvia, me entendia, me motivava, repetia sempre o quanto me achava foda, autêntica, incrível… a gente ria das mesmas piadas, curtia as mesmas músicas, tínhamos opiniões muito parecidas.

Acho que ninguém me conhecia tão bem e vice-versa. E eu ainda admirava ele absurdamente. Enfim, tudo o que eu precisava naquele momento. Nunca ficamos tão próximos, tínhamos diversas coisas em comum, nossas famílias se conheciam… estar com ele era… fácil.

Até que, vou tentar encurtar: nos beijamos uma vez, mais de uma vez, sempre. E quando me dei conta nós estávamos juntos!

Era legal porque ele sempre me disse que eu podia ser quem eu quisesse, e o que eu realmente queria era ser eu mesma com alguém. Então funcionou, pelo menos por uns dois meses.

Até que um dia ele simplesmente disse que não sabia mais o que pensar, se afastou e quando eu me dei conta, ele estava namorando. E detalhe: muito menos de um mês depois.

Foi um choque! Sabe aquelas coisas que acontecem do dia para noite e você só se dá conta quando vê? Foi isso.

Eu insisti muito, por muito tempo, por uma explicação.

Até que ela veio: era, mais uma vez, o meu jeito.

Existem 2 momentos que sempre aparecem na minha cabeça quando eu penso nisso.

O primeiro foi o dia que ele disse que estava apaixonado por mim. Fez uma curva sem noção com o carro, puxou o freio de mão, soltou essa bomba e continuou dirigindo.

O segundo foi quando, perguntando o que tinha acontecido, me veio a resposta:

Eu gosto de você. Mas isso funciona pra mim. Amigas como você, mas para relacionamento é o perfil dela.

Ele nunca me disse, acho que por falta de coragem, mas eu sabia qual era o perfil dela: maquiagem, vestidos, uma delicadeza que eu não tinha e que eu achei que com ele não seria um problema.

Depois disso, todos os nossos amigos passaram a ser amigos deles. Eles me evitavam, mal me diziam oi. As poucas pessoas que sabiam o que tinha acontecido com a gente — que é muito mais coisa, mas não importa tanto para entender o rolê — ignoravam tudo.

Todo o apoio que eu tinha havia sumido, a minha avó mudou de cidade, a minha mãe não queria contar a verdade para o meu pai não biológico (eu entendo ela, mas era difícil lidar com isso)…

Minha vida estava um caos. Mas eu fingia que estava tudo bem.

O diagnóstico

Eu comecei a me afastar das pessoas sem perceber. Quando me dei conta, não queria sair mais do meu quarto. Pedi demissão do meu emprego porque não aguentava mais.

Mas seguia fingindo que tudo isso não era grande coisa.

Afinal, para quem eu ia contar? E o que eu ia dizer?

Então eu prosseguia enganando os outros e eu mesma.

Até que o meu corpo começou a ficar estranho… em alguns meses eu fiquei doente sucessivamente, mas eu ignorava o máximo possível que isso tivesse alguma relação. Fiz uma série de exames e eles nunca estiveram tão alterados. E a droga de uma bolinha apareceu no meu olho.

Em mais alguns meses essa bolinha se transformou em várias bolinhas nas minhas pálpebras, em ambos os olhos e tanto na parte superior como inferior. Além de esteticamente desconfortável — e eu não estava lá muito feliz com a minha aparência depois de tantos feedbacks — elas incomodavam muito.

E como elas eram a parte mais visível do meu problema, eu ignorei todo o resto e foquei em tirar aquilo da minha cara.

Alguns oftalmologistas depois, visitas à clínica de olhos da Santa Casa, 3 colírios, 2 pomadas, muita água quente, alguns processos bem dolorosos… e um dos médicos me disse que eu estava com depressão.

Isso mesmo, um oftalmologista.

Ele juntou os calázios — que são essas bolinhas — com outros problemas que eu tinha e nem estava notando: a pele muito ressecada em pontos específicos (dermatite), problemas sérios para dormir, mudança de peso, deficiência de algumas vitaminas e, é claro, esse histórico bacana de acontecimentos.

O tratamento

Primeiro, foi um choque. Isso aconteceu exatamente 1 ano depois — sem tirar nem um dia — do início do meu “o que quer que seja” com o coleguinha lá: dia 04 de julho, um mês exato antes do meu aniversário.

Dado isso, ficamos uns 3 meses “juntos” — o que cai para setembro — e os meus primeiros calázios aparecerem em outubro — o que somam 10 meses entre o primeiro sintoma visível até o diagnóstico!

Foram os piores meses da minha vida, sem sombra de dúvidas. Mas nada se comparava a esse segundo da fala do médico.

Eu tinha voltado com o namorado, o mesmo do “você podia ser mais feminina” porque ele havia dito que tinha pensado melhor, que estava arrependido e que gostava de mim do jeito que eu era.

Eu admito: não queria tanto estar com ele depois disso. Mas eu precisava tanto de 1 única pessoa que pudesse me dar algum apoio que voltei e, para falar a verdade, não me arrependo.

Terminamos “coincidentemente” no mês do diagnóstico? Sim. Pelo mesmo motivo? Claro! Mas ele estava lá quando eu recebi essa bomba. E foi importante.

Então, algumas semanas depois, eu tinha a proposta de um novo emprego  — que não era uma simples proposta, mas o emprego dos meus sonhos —, nenhum suporte, as bolinhas nos olhos e a merda de uma doença que até ali eu, de verdade, achava que poderia ser uma frescura da minha parte. Nunca menosprezei ninguém nesse contexto, mas comigo? Impossível.

Eu sou engraçada. A mais, geralmente. Minha marca registrada sempre foi o humor e o carinho pelas pessoas. Sem a menor forçada de barra ou nada do tipo.

Eu era um reflexo da minha criação, e a minha avó já tinha passado por tanta coisa muito pior e sempre esteve bem sabe? Ela é exatamente assim. Alegre, divertida, muito forte e sempre muito preocupada com as pessoas.

Melhor pessoa do mundo.

Por isso eu não poderia estar mal.

Mas eu estava. Péssima. Com medo de perder o novo emprego no primeiro dia. Com medo de não ser boa o suficiente para mais nada. Vazia. Sozinha. Confusa. Completamente perdida.

Só tinha um problema: eu precisava desse emprego. Não só porque ele era a realização de um sonho profissional antigo, mas porque eu precisava realmente dele. E se por causa disso eu tinha que fazer terapia, eu ia fazer. E fiz.

O aprendizado

Depois de meses de terapia, muito estudo sobre a doença, e o fim dos calázios que não melhoraram com os remédios, mas sim com muito choro, a primeira coisa que eu descobri é que é sim uma doença!

Pessoas ficam gripadas, pessoas têm anemia. Eu tinha depressão.

Precisava de tratamento, medicamentos, acompanhamento e cuidados com a minha saúde que não eram só mentais, como mudar a alimentação, diminuir o açúcar, fazer exercícios… enfim, uma pilha de coisas que, em conjunto, me ajudaram a melhorar.

Então ignorar isso ou menosprezar a doença por não ser tão convencional é o maior erro que uma pessoa pode cometer. Eu possivelmente não estaria melhor se não tivesse passado a encarar tudo de maneira séria e sem esse medo — e até preconceito — que existe sobre o assunto.

A depressão pode ter diversas causas — inclusive não só psicológicas e emocionais — que afetam a sua vida em pelo menos 4 aspectos:

  • Cognitivo (dificuldade de concentração, atenção e memorização);
  • Humor (e não necessariamente tristeza);
  • Físico (alimentação, disposição, sono, libido);
  • Comportamento (isolamento, falta de prazer, inconstância).

Como não dizer que isso é sério?

O segundo ponto era que eu me odiava. Você não faz ideia.

Eu passei a me sentir rejeitada de um milhão de formas e achava que isso tudo era culpa minha: eu era insuficiente para as pessoas.

Era minha culpa o afastamento dos meus pais. Era minha culpa o meu término, a volta do namoro e o término novamente. Era minha culpa os amigos terem me deixado na mão. Era minha culpa não aguentar tudo isso. Era mais minha culpa ainda que a pessoa que mais me conhecia no mundo não me achava boa o suficiente para “merecer” a chance de estar com ele.

Era minha culpa que ele estava com uma pessoa — que de quebra eu já conhecia e não gostava — e não comigo.

Eu achava que ela tinha tudo o que eu e ele abominávamos. E ele gostava dela. Ou seja: eu era pior que uma pessoa que tinha todas as características que eu tinha pavor.

Eu não sei quantas orações eu fiz ou quantas vezes eu disse para mim mesma que eu não queria ser eu. Que eu não aguentava ficar perto de mim mesma. Que eu não merecia nada nem ninguém.

E é estranho porque entre se odiar e reconhecer que se sente isso existe um penhasco sem volta, no qual você pula e só descobre o que vai encontrar quando chegar lá embaixo.

Por isso, outro ponto fundamental: eu precisei parar de menosprezar a minha dor.

A quantidade de pessoas que me dizia e ainda diz “Mas você ainda sofre por isso?” era e continua sendo incrível.

SIM, EU SOFRO. Obrigada por perguntar.

Falando sobre dor, entendi também que é muito mais difícil passar por isso sozinha.

Minha terapeuta me obrigou a ter pessoas com quem conversar. Inclusive para momentos de emergência.

Só que, infelizmente, nem sempre essas pessoas vão poder te ajudar, por motivos diversos. E o principal deles é porque essa é uma luta diária e muito pessoal.

Para se ter uma ideia, 50% das pessoas que tiveram depressão em algum momento da vida vão voltar a ter o quadro. E dessas, 70% terão pelo menos pela 3ª vez.

Eu ainda lembro e choro muito. Eu ainda sinto uma puta saudade. Eu ainda me pergunto se eu podia ter feito alguma coisa diferente. Eu ainda sinto até culpa. Eu ainda sonho com isso.

Mas também aprendi que existem vazios que ninguém pode preencher. A gente só aprende a lidar com eles. Ficamos mais fortes, choramos menos, sofremos menos, mas aquele buraco fica ali.

Ah, e lembra dos antigos amigos? Pois é, eu tive que deixar todas as mágoas, e com isso todos eles pra trás. Infelizmente desapegar é uma necessidade, mas você vai se sentir muito bem quando fizer.

Eu lembro, ainda esbarro com um ou outro na rua ou até no trabalho… uns me pediram desculpas, outros fingiram que nada aconteceu. Mas tudo bem.

Sim, eu sou aquela pessoa que disse que os buracos existem e são insubstituíveis, mas ao mesmo tempo isso não signifca que eu não tenha feito novos amigos, tenha tido outras relações, embora ainda não tenha me apaixonado de verdade, mas saiba que isso vai acontecer e que pode ser ótimo.

Mas, é claro, vai ser difícil. E eu vou ter — e já tenho — muito medo. Só que o medo mente pra gente de tantas formas…

Era o meu maior sentimento: medo de não ser boa o bastante, medo de perder o emprego, medo das pessoas notarem, medo de nunca ser amada, medo de ficar sozinha, medo de ter uma recaída, medo de encontrar com ele na  rua, medo de voltar a ter calázios, medo de chorar…

E isso mudava a minha perspectiva do mundo! É bizarro.

Você enxerga todas as coisas pela ótica do medo e isso te deixa ainda mais inseguro, mais vulnerável, mais paralisado sobre a ideia de mudar o rumo do seu estado atual.  

Mas não tem problema sentir medo. Ou não estar feliz. Você só não pode se render a isso.

Aliás, não reduza a experiência de viver a ser feliz.

Não, essa frase não é minha. Eu li em um livro chamado Mentes Depressivas, que aliás é de uma psiquiatra brasileira incrível. Ela virou um mantra pessoal.

Eu não preciso e nem vou estar feliz o tempo todo. Minha vida não é um tumblr cheio de fotos maravilhosas e eu não preciso vender para o meu contexto social uma imagem irreal e perfeita de mim. Eu tenho sentimentos e, por mais clichê que seja, é isso que me torna humana.

Por fim, mas não menos importante, eu descobri que meu estilo não me define. Pelo menos não pra quem realmente me conhece. Nem a quantidade de rímel que eu uso, ou o tamanho do salto que eu tenho.

Eu li isso no post da Fê e fez um sentido absurdo pra mim. Porque no final, para a maioria das pessoas desse meu processo, o que pesava mais era o que eu tinha, onde eu estava, e não quem eu era.

  • Eu podia ter os amigos que eu tinha se eu ainda me relacionasse com aquele amigo;
  • Eu podia ser amada se eu usasse vestidos coloridos;
  • Eu seria uma boa namorada se eu passasse maquiagem;

Sorry, essa não sou eu.

E não por uma obrigação de ser A diferente, mas eu mostrei a minha foto com 1 ano! Essa sou eu desde sempre.

Não me sinto menos ou mais feminina — aliás, que termo subjetivo — por nenhuma dessas coisas. E isso não só não me define, como é pequeno demais perto de quem eu sou.

Uma pilha de defeitos e qualidades, mas que eu estou tentando aprender a amar. Tem dias que mais, tem dias que menos. Tem dias que ignoro.

Mas no final, diferente de todo mundo, eu não consigo viver sem mim.

   Texto escrito por Laís Bolina (Laka!)