Já inicio esse texto dizendo que, muito provavelmente, ele irá gerar opiniões diversas. Possíveis desconfortos, críticas construtivas, e até mesmo feedbacks não tão amigáveis assim.

Não tenho problemas com isso, mas já deixo claro que, antes de cavar neste universo de opiniões e pontos de vista diferentes, nada do que eu digo aqui eu posiciono como verdade absoluta. Se você discorda e quiser contribuir, não só te encorajo como te peço para que o faça!

Gordofobia: a minha (não) vivência com esse mal

Aqui quem fala é Isabela. Tenho 24 anos, e eu não sofro gordofobia, mas isso nem sempre foi claro para mim.

Hoje eu sei disso, mas garanto que muita gente numa situação parecida com a minha não sabe. Essa palavra é muito mal utilizada por pessoas que a confundem com outros termos, como eu já fiz um dia.

Há alguns anos atrás, eu tinha acabado de voltar de viagem e tinha engordado bastante. Estava saindo de uma festa e um bêbado começou a avançar na minha amiga. Eu puxei ela pra gente ir embora (e ela estava claramente desconfortável), e ouço:

“Vai procurar alguém que te queira, sua gorda! Só porque você é gorda não precisa empatar a fod* dos outros.”

Cada um percebe as coisas de uma forma, mas pra uma menina com a autoestima baixa no início dos seus 20 anos, não é das coisas mais saudáveis de se ouvir.

Já dá pra imaginar que eu achei, durante um bom tempo, que tinha sofrido um ataque gordofóbico (e talvez até tenha sido, mas eu vou chegar lá).

Gordofobia é, por definição, a aversão ou preconceito com pessoas gordas. Mas será que isso se resume a um evento avulso?

Essa foi a única vez, em 24 anos, que alguém foi desrespeitoso comigo nesse nível;

Eu nunca fui a uma loja de roupas e não coube na numeração;

Nunca olharam torto para mim na praia;

Eu nunca tive medo de não passar na catraca do ônibus;

Eu nunca quebrei uma cadeira só de sentar nela e fui julgada por isso (pode acontecer com qualquer um, mas só há julgamento e preconceito se for uma pessoa gorda);

Nunca olharam torto para mim em um restaurante. (Aparentemente, se você é gordo e pede salada, você é ingênua de pensar que vai “adiantar”, pois automaticamente inferem que você está de dieta. E, se pede batata frita, é “desleixada” e deveria se preocupar com a sua saúde.);

Nota: a lista das situações exemplificadas acima foi toda relatada por uma pessoa gorda que, de fato, passou por (quase) todos eles. Ela preferiu não se identificar.

Eu não tenho ideia do que pessoas que são realmente gordas passam, e seria no mínimo ingênuo (e talvez até maldoso) eu me colocar no mesmo patamar de sofrimento que essas podem atingir pessoas quando se trata deste assunto.

O evento que eu vivi até pode ser caracterizado como um ataque gordofóbico, mas eu não sei o que é viver isso todos os dias de diversas formas diferentes.

Eu sei que eu não sofro gordofobia. Não estou dentro do padrão de magreza considerado ideal, mas estou longe de ser excluída e julgada socialmente pelo meu corpo. Por isso, eu não estou aqui pra dar uma resposta nível dicionário pra essa pergunta.

É um assunto tão amplo e subjetivo que me faz pensar e repensar todos os dias. É “Ok” dizer que fulano sofre gordofobia porque ele está com tantos kg ou veste tal tamanho? Porque ele passou por X situação? Eu não sei dizer.

Ao final do texto, vou deixar algumas referências de pessoas que realmente sabem (e podem!) responder a essa pergunta. Mas fica aí a reflexão 🙂

O que é pressão estética?

Aqui quem fala é Isabela. Tenho 24 anos e eu sofro pressão estética. Eu só fui entender, de fato, o que era isso, há um tempinho atrás.

Eu aprendi o que era pressão estética, e que eu sofria disso, quando engordei uns 10kg após “vencer” minha luta contra alguns (todos os) distúrbios alimentares.

*Nota: a palavra vencer está entre aspas pois hoje sei lidar com eles, mas eles ainda não foram embora.

Eu já enxerguei as coisas por alguns lados da moeda (não todos). Já fui bem magra (bem mais magra que sou hoje) e já fui alguns kg mais gorda do que sou hoje. E independente da fase que eu estava vivendo, o medo esteve sempre lá.

O medo de não ser aceita, de não ser boa o suficiente, de não ser magra o suficiente, de não ser bonita, gostosa, querida, desejada, de não ser suficiente.

Parece fútil. Soa fútil, e pra muita gente, talvez seja. O problema é que é um problema real que afeta milhares de mulheres todos os dias, e trabalhar com uma realidade dolorosa é melhor do que criticar em cima de uma utopia.

Eu não conheço nenhuma mulher que não sofra pressão estética. Ela é um resultado de padrões impostos por uma sociedade doente que quer fazer a gente gastar dinheiro.

E como fazer as pessoas gastarem dinheiro? Fazendo elas pensarem que têm problemas a resolver.

A pressão estética é o que as pessoas sentem diante de um ideal de beleza imposto, e ela, diferentemente da gordofobia, não depende exclusivamente da sua aparência física para existir.

Como diferenciar os dois conceitos e lidar com tudo isso?

É preciso ter paciência. É preciso ter compreensão, respeito e empatia, para entender que todas nós sofremos a pressão estética, da nossa própria maneira.

Muito se fala em sororidade hoje em dia. Em nós, mulheres, apoiarmo-nos, e termos compreensão pela próxima por sabermos o que a outra vivenciou.

Empatia é saber que a mulher gorda vivencia coisas que mulheres “dentro do padrão” não, e coisas que vão muito além da “aprovação” de outras pessoas. É saber que ela é excluída socialmente e julgada, e tem que ter uma força absurda para lidar com tudo isso.

É ter respeito pela história dessas mulheres. É saber que algumas delas vivem perfeitamente bem e felizes do jeito que são, e que isso é lindo. E que muitas delas, não, e isso é perfeitamente compreensível dada a sociedade doente em que vivemos.

Empatia é saber que a mulher considerada “padrão”, muitas vezes, se olha no espelho e não gosta do que vê. Isso não invalida a dor dela. Isso pode significar que, possivelmente, ela não colocou as coisas em perspectiva. Ela pode não ter estudado sobre o assunto e achar que sofre tanto quanto uma pessoa gorda.

Ou, ela sabe que não sofre gordofobia, mas mesmo assim não se vê da maneira que gostaria e não consegue se libertar disso.

De todo jeito, ter empatia é se colocar no lugar da outra mulher e, mesmo se ela estiver falando abobrinha, tentar entender o lado dela e falar. Educar, debater, falar sobre o seu lado e a sua visão e tentar entender o da outra. Se a gente só criticar e não falar com o intuito de se ajudar, qual o sentido disso tudo?

Sobre lugar de fala e dar voz às pessoas certas

Hoje eu trouxe um assunto à tona sobre o qual muita gente evita falar. Falar sobre gordofobia não é confortável, é chato e ainda é tabu. Falar sobre a gordofobia de forma crua e consciente ainda é mais raro do que a gente imagina. Desconstruir o adjetivo “gordo(a)” como algo ruim, ainda mais.

Postar textão sobre minorias e militar no facebook, mas rir da menina gorda na rua só porque ela está usando uma roupa que mostra o corpo, é algo mais comum do que a gente pensa.

Eu abordei este assunto porque posso falar sobre pressão estética, e quero levantar cada vez mais discussões saudáveis sobre esse tema. Não me aprofundei no assunto “gordofobia” pois não é meu lugar de fala e eu realmente não tenho propriedade para abordá-lo, mas aproveito para levantar uma questão importante:

Pessoas gordas são, todos os dias, julgadas e excluídas socialmente. Imagino que, uma menina loira, branca e “dentro do padrão” tenha muito mais visibilidade falando sobre esse tema do que uma pessoa gorda.

Por isso, deixo abaixo uma lista de blogs e canais de pessoas gordas maravilhosas, com as quais eu aprendo todos os dias, e que abordam estes temas de forma bem mais profunda:

Alexandra Gurgel

Bernardo Fala

Thais Carla

Cariorevela

Todebells

Rayneon

Luiza Junqueira

Gorda é a mãe!

Ju Romano

Quem sabe um dia teremos um deles escrevendo aqui pro blog? (Seria meu sonho?) Mas por ora, se você quiser saber mais sobre esse universo e entender o que é, de fato, a gordofobia, dá uma olhada no perfil ou canal deles. Eles não só sabem do que estão falando, como dão verdadeiras aulas sobre vários temas, incluindo os desse texto. 🙂

Créditos da imagem do post: TodaTeen

Belinha é pipa avoada! Por isso, esqueceu de escrever essa bio e escrevemos pra ela, hehehehe. Pra conhecer mais do mundo da Bela, continua acompanhando a gente!