O ano era 1996, meu primeiro ano na escola. Como eu estava animada! Finalmente começaria na “escola das crianças grandes”.

Eu gostava de estudar, gostava de poder ir para a escola pois lá encontraria meus coleguinhas que haviam feito jardim comigo.

Como era uma escola de bairro, estudaríamos todos juntos de novo. Começa o ano letivo. Entram alguns novos coleguinhas, novas amizades a se fazer. Contudo, nem tudo são flores.

Curiosamente (pois era uma escola pública em um bairro classe não alta no Brasil, um país miscigenado), eu era a única criança negra do cabelo afro da sala.

Isso nunca me incomodou. Na verdade eu nunca havia percebido que meu cabelo era um problema, que não são todas as pessoas que gostam desta de textura de cabelo.

Tudo começou com um apelidinho bobo. Crianças tem umas brincadeiras cruéis às vezes, é normal (não, não é normal – mas chegaremos lá).

Começou com uma garoto falando mal do meu cabelo. No outro dia foi outra pessoa rindo da brincadeira. Ainda lembro do dia em que esse menino falou com os outros da sala: –“ Não coloca o pé no chão, a ‘produto ‘ tá com o pé no chão. Se vc ficar com o pé no chão  seu cabelo vai ficar igual ao dela.” Eu lembro de quando olhei por debaixo da minha carteira e vi que todos da sala haviam levantado os pés.  Foi aí que percebi que meu cabelo era um problema.

Falei com os professores. Nenhum fez nada. Foram vários recreios passados  dentro de sala de aula sozinha e chorando sem entender o que havia de errado com meu cabelo. Eu tinha seis anos.

Depois de alguns anos, mudei de escola. Escola nova, ninguém teria problemas comigo desta forma. Ledo engano.

O apelido não era o mesmo, mas neste momento recebi um novo apelido. Minha personalidade se tornou agressiva. Acho que foi a forma que encontrei de me defender.

Claro que procurei formas de mudar meu cabelo. Eu não podia ficar com aquilo na cabeça, ele era ruim! Ninguém quer ter um cabelo ruim! Comecei com química aos seis anos. Eu tentei por tempo demais agradar outras pessoas com a minha aparência.

Cabelo mexe com a autoestima, né? A gente gasta metade do salário se alguma coisa der certo no cabelo. Deixa de comer uma coisa gostosa, de passear e de comprar uma roupa nova para pagar pelo tratamento doloroso no cabelo (no meu caso era doloroso pois a química era forte, além de afetar minha autoestima).

Sair de casa sem ficar uma hora e meia debaixo de um calor absurdo do secador no verão brasileiro sem esticar o cabelo? Nem pensar! Eu era feia, não podia deixar meu cabelo feio também. Entrar na piscina e curtir em um dia de verão? Nem pensar, fiz escova ontem.

O clique veio há um ano e meio (quando meu cabelo literalmente foi ralo abaixo), eu decidi que quem manda aqui sou eu.

Hoje, depois de muito trabalhar minha amizade com o espelho –  estudar um bocado a respeito e me inspirar em meninas maravilhosas (obrigada internet!) vejo que todas as diferenças são belas. Hoje entendo e sei que todas as belezas são únicas e é exatamente a diversidade que nos faz lindas.

O que antes era “regra”, agora é escolha. Cada mulher é livre para escolher ser como quiser, se vestir como quiser e levar a própria vida do jeito que quiser.

Ainda estou no processo de (me) entender melhor e conhecer meu cabelo novamente (não o conheço há 20 anos!) mas essa amizade tá maneira, quero continuar nesse caso de amor por muito tempo ainda.

Se tudo der certo, para sempre.
Joyce Correa. Mineira de Belo Horizonte, estudante. Ama fotografia e se aventurar por aí!