Em algum momento da minha vida, quando eu era mais nova, eu tomei uma decisão.

Uma decisão que talvez tenha sido feita inconscientemente e talvez mais atrelada à um mecanismo de defesa do que a qualquer outro motivo.

Essa decisão é relacionada a quem eu quero ser (ou quem eu acho que “nasci para ser”).

E essa resposta está diretamente atrelada à minha carreira.

(Essa é uma história mais longa, que posso contar em um outro post no futuro, quem sabe!)

A minha carreira (que na época, nem existia), se tornou o centro de tudo e as outras instâncias da minha vida apenas orbitavam em torno dela.

Tudo, simplesmente tudo, que acontecia era em prol dela.

A minha carreira (ou a ideia dela) era a minha identidade, e ter uma identidade sólida era (e talvez ainda seja) importante demais – e não só para mim.

No ensino médio, eu não vivi o aperto de chegar no vestibular “sem saber o que eu queria”. Na faculdade não questionei meu curso em nenhum momento e nunca iniciei um trabalho sem visualizar “a outra ponta”.

Até esse ano.

Nesse ano em particular tenho me questionado bastante sobre essa decisão, que antes nunca havia questionado (sem motivo específico, a não ser pelo fato de que ela já existe há tempo demais) e tenho levantado algumas reflexões que quero compartilhar com vocês hoje.

Começo adiantando que eu não me desprendi das coisas que falei acima.

Hoje consigo enxergá-las por outra perspectiva, mas trabalho ainda é uma instância que em geral controla a minha vida e não o contrário. Tenho aprendido a me questionar –e mais do que isso, me descobrir – mais, e alguns pontos se tornaram muito fortes para mim.

O primeiro é sobre como costumamos associar identidade à carreira.

Quando alguém pergunta o que fazemos da vida, falamos de cara: “Sou médico”. “Sou vendedor”. “Sou dentista”. E por aí vai.

Entendo que a profissão ocupa bastante tempo, energia e é um dos pilares para nossa satisfação.

Mas a profissão não é – ou deveria ser, ao meu ver – tudo que temos (ou que somos) na vida.

*É importante dizer que eu AMO trabalhar, quero gastar muito tempo e energia com o meu trabalho e o vejo como instrumento para realizar aquilo que interpreto como meu papel no mundo – se é que isso existe.

Mas se o trabalho é tirado da sua vida, o que resta de você?

Tem que ter alguma coisa. Tem que ser alguma coisa.

E nós somos muito mais do que nossa carreira.

Nós, na verdade, somos muito mais do que apenas uma instância da nossa vida, qualquer que seja ela.

Hoje, com a acensão dos modelos de plataforma e o fácil acesso a informação, temos um mundo de possibilidades daquilo que podemos fazer (e consequentemente, ser. Ou nesse caso, não somos necessariamente nada, mas muita coisa ao mesmo tempo. Confuso?).

Sem contar que, inevitavelmente, no caminho de “ser” alguma coisa, nos tornamos muitas outras coisas também.

Meu atual líder no trabalho e uma das pessoas que mais admiro profissionalmente, já trabalhou como: barman, garçom, vendedor da Apple, psicólogo em um presídio, implementador de Software e muitas outras diferentes funções até se tornar gerente de um time de 20 pessoas em uma empresa de Marketing de Conteúdo (e hoje ele me disse que após atingir o auge da carreira ele quer largar tudo e ter uma plantação ou coisa assim).

Se a carreira é identidade, precisamos de uma identidade satisfatória o quanto antes e tudo que aparece no caminho – que com toda certeza contribui para o ofício seguinte e para a vida como um todo – pode se transformar em frustração.

O que entra no caminho – que não só nos faz evoluir, como nos descobrir – se transforma  no peso do “não é o que eu queria ser”, e na pressão do “não posso ficar tempo demais aqui porque preciso ser outra coisa”.

(E no meio disso tudo ainda existe a ansiedade da nossa geração, que fica entediada fácil demais, que quer tudo para ontem e aquilo tudo que a gente já sabe).

É importante dizer que sou a favor de planejamento de carreira. Sou também alguém que gosta de dinheiro e me preocupo com a minha sobrevivência, lazer, e no futuro dos meus filhos também.

Dinheiro é essencial para sobrevivência e isso é indiscutível.

O segundo ponto é que às vezes não questionamos escolhas que tomamos há muito tempo, só porque elas foram tomadas em algum momento, há muito tempo atrás.

(Confuso?)

Parece que, de alguma forma, deixar certas ideias irem é perder parte da nossa identidade.

É “trair” quem um dia nos fomos (e que muitas vezes, ainda achamos que somos).

Nós mudamos a cada segundo. A cada pessoa que entra em nossas vidas. A cada pessoa que sai. A cada ideia que aparece. A. Cada. Segundo.

Ainda assim, às vezes caímos na ilusão de que não precisamos nos redescobrir o tempo todo e tomar novas decisões com base em novas perspectivas que temos.

O que tomei como verdade absoluta 10 anos atrás é o que mantém as minhas decisões de hoje, ainda que minha realidade em partes vá de encontro à realidade passada.

Eu preciso me descobrir. Preciso me redescobrir. A. Cada. Segundo.

O que me leva ao próximo ponto e também título desse texto.

Como muitas vezes focamos em ser alguém e deixamos de focar em nos descobrir.

Poder aquisitivo, que muitas vezes é associado a “ser alguém”, é importante, sim.

Ter que trabalhar em funções que não se sente prazer faz parte da vida, sim.

Não estou querendo dizer que devemos largar tudo e viver apenas daquilo que amamos, mesmo que aquilo não nos dê retorno financeiro e atrapalhe nossas condições de sobrevivência.

Meu ponto é que nos é ensinado, desde o momento que nos perguntam o que queremos ser quando crescer, que devemos ser alguém. Não nos é ensinado a importância de nos descobrirmos – pelo menos não sem que isso esteja atrelado à primeira questão.

Não sei o que é criar uma criança então também não estou colocando em questão aqui o que é bom ou não para o desenvolvimento de uma.

Mas todos nós já presenciamos impulsos de crianças serem cortados porque iam contra à teoria do “ser alguém”.

Sem contar que todos nós elevamos a pergunta do “o que você quer ser quando crescer“, e por aí vai.

No fim do dia…

Acredito que o que nos faz extraordinários (e que eventualmente pode virar uma carreira – ou não) já existe dentro da gente. E talvez descobrir isso seja mais difícil do que de fato desenvolver.

Penso que a descoberta de quem somos, do que gostamos e em que somos boas leva o tempo de uma vida inteira.

Mas existem formas de tentarmos nos conhecer melhor e tenho buscado focar nisso, o que refletido muito bem em minha carreira.

Se você passa/já passou por isso, ou pensa de forma completamente diferente, adoraria ouvir o que você tem a dizer! 🙂

 

 

 

Fê Rodrigues

Mineira. Sempre animada para a próxima refeição. Quando não estou falando sobre música e Kendrick Lamar, gosto de escrever sobre momentos e sentimentos.